Minha versão da solidão materna

Toda mãe passa por isso, algumas escrevem a respeito, mas cada experiência é diferente. Essa é a minha versão da solidão materna.

A solidão materna é um fato. Eu tentei fugir dela. Na verdade, eu neguei que ela fosse acontecer comigo. Eu tenho um marido totalmente presente, família e amigos que oferecem ajuda. Aquela rede de apoio que todo mundo sonha em ter, eu tenho. E mesmo assim, a solidão materna apareceu como um tapa na minha cara. Uma facada emocional.

A “minha” solidão materna não é a solidão do abandono (que eu entendo ser indescritivelmente pior). Eu raramente estive sozinha em quatro meses de maternidade. Sempre que eu preciso eu tenho ajuda e até quando eu não precisaria, tem alguém por perto. Mesmo assim, de repente, eu me vi muito sozinha. Eu me senti muito sozinha.

A pior solidão é que a você sente numa sala cheia de pessoas.

A cena é: festa de família, mais de vinte pessoas. Todo mundo pegando um pouco o bebê no colo (ufa, folga pra mamãe). Todo mundo tomando um vinho, uma cerveja. Conversas rolando animadas. O bebê chora porque é hora de mamar.

A mãe pega o bebê e se retira do meio da confusão. Fica isolada com o bebê num quarto, por uns 40 minutos. O bebê mamou, arrotou e dormiu. A mãe volta pra festa com a babá eletrônica em mãos. A festa continuou como se nada tivesse acontecido.

A mãe tem mais ou menos 2h até a próxima mamada, mas essa preocupação é só dela. Ela tem 2h precisa comer e aproveitar a festa. Ela pega os papos todos já começados, vocês estão falando sobre o quê?, será que pode tomar uma cerveja? Alguém dá uma risada mais alta, ela confere a babá eletrônica. Parece que a preocupação do bebê acordar antes da hora também é só dela.

O bebê acorda um pouco antes da hora. Ela se retira para pegar o bebê, ela pede licença no meio de uma história. A festa continua como se nada tivesse acontecido. Ela troca a fralda do bebê e ouve o desfecho da conversa que participava de longe. Ela volta com o bebê para a festa e alguém pega o bebê no colo. Ela tem uns 30 minutos até o bebê querer mamar de novo, mas parece que essa preocupação é só dela.

relato de solidao materna

Foi assim que, mesmo muita com ajuda, mesmo com apoio, eu me senti muito só

Há a sensação de que algumas preocupações e responsabilidades são só suas. Ninguém está pensando sobre elas. Ninguém liga. As pessoas têm seus próprios problemas. A impressão é que de que está todo mundo vivendo a própria vida e você, só você, vivendo a vida do bebê.

Eu, mesmo com um marido-pai-do-bebê exemplar, me vi muitas vezes com essa sensação de solidão. Afinal, a responsabilidade da amamentação em livre demanda é minha. E só minha.

Aliás, toda nova mãe com quem eu converso, aponta a amamentação em livre demanda como um dos maiores motivos da solidão materna no puerpério. Principalmente nas madrugadas. Porque é nas madrugadas (quando o bebê ainda acorda para mamar) que a mãe sente que é a única pessoa que realmente precisa acordar.

Mesmo que outro cuidador esteja de prontidão para pegar o bebê (trocar a fralda, ninar etc.). A outra pessoa tem o direito de querer dormir mais um pouco, pode não acordar com o choro, pode estar com dor de cabeça, pode estar viajando, pode estar ocupada. Só você, mãe que amamenta em livre demanda, não pode. Só você.

A constante preocupação com o bebê cria um “isolamento” mental das mães.

E é nesse isolamento que a gente se sente só. Não apenas por causa da amamentação, veja bem. A sensação de solidão também aparece quando as pessoas estão pensando em um show que vai ter na cidade e você pensando na próxima vacina. Quando falam sobre um bar novo que você pre-ci-sa experimentar, e você pensando que precisa estar na cama às 22h. Quando a pessoa tá sacudindo com o bebê sem preocupação e você tem que falar “pelo amor de deus, não sacode o bebê”. Quando você quer falar de política/cultura/arte e as pessoas acham que você quer conversar sobre o bebê…

Em loop. Infinito.

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