Como você lida com a solidão?

Uma reflexão sobre a solidão de pais separados

 

Eu definitivamente não estava pensando na solidão de pais separados. Era para ser só mais uma tarde no parquinho da Lagoa, naquele momento em que preciso gastar a energia da minha pequena antes da noite chegar. Sentei no meu cantinho, um pouco afastada da algazarra das mães dos bebês e ao mesmo tempo com vista panorâmica para todos os brinquedos.

Logo depois, chega um pai de bicicleta com uma bebezuda de pouco mais de um aninho. Olhei para a cena com aquele coração pequenininho de mãe que sente falta de bebês em sua vida (por dois minutos). O pai parecia meio deslocado naquele ambiente inóspito que só os parquinhos podem ser das primeiras vezes e estendeu um tapete e brinquedinhos perto de mim.

Papo vai, papo vem, compartilhamos as informações que trocamos nas pracinhas sobre as crianças e a vida de pais. Em algum momento o papo ficou mais sério e falamos das nossas separações. Ele, separado há apenas seis meses, ainda está na fase montanha russa onde tudo ainda é novo, intenso e triste. Eu, mais de quatro anos depois, navego na calmaria de quem já aparou as arestas e encontrou a felicidade no meio do furacão.

Enquanto dava meu coração para um completo estranho, eu recebia o dele de volta.

Era engraçado comparar a vida de alguém que criava a filha diariamente enquanto ele criava só no final de semana.

Eu falava do trabalho mental que era cuidar de tudo sozinha, da sensação que eu tive de ficar pra trás com toda vida pra cuidar, sustentar, do medo que eu tinha de nunca mais achar um amor por que era tão difícil namorar com uma filha dentro de casa 2/3 do tempo.

Ele falava com um pesar muito grande de como ele se sentia apenas um provedor, que falava pouco para não parecer ingrato, que sentia estar perdendo tanto da criação da filhinha, ainda bebê.

 

Como você lida com a solidão?

Como você lida com a solidão?

Ele perguntou isso de supetão e eu ri, porque foi como se ele tivesse me empurrado para debaixo de um ônibus. Minha sorte é que Victoria me chamou para ajudá-la com um pé preso no balanço e a bebê do nosso lado estava com areia nos olhos.

Quando conseguimos sentar novamente, ele olhou pra mim e riu. Eu quis chorar.

Sim, eu estou feliz. Mas, ainda hoje, existe uma linha tênue entre eu estar bem e estar na mais completa merda.

A verdade é que a solidão está à espreita o tempo todo. Quando todo mundo do meu lado está apaixonado. Quando eu viajo para algum hotel fazenda ou resort e estou ao lado de centenas de famílias e ser a única desprovida de um par. Quando estou o final de semana todo sozinha vendo TV e não tem ninguém para rir porque estou derramando lágrimas por algum show cafona do Hallmark Channel na Apple TV. E nem para comer o sushi de sábado à noite. Quando o grupo de amigos onde todos são casais te esquece por que afinal você não pertence mais ao mundo dos casados.

Mas tem a parte boa 

Quando eu aprendi a aproveitar o tempo sem criança para ter encontros casuais com gatinhos lindos. Quando estou livre para fazer compras com as amigas, visitar uma livraria e almoçar com calma. Quando eu posso passar um final de semana acampando em Trindade com algum amigo aventureiro. Quando não preciso me preocupar com rotina, com horários ou mesmo em estar de roupa. Liberdade é algo precioso. Mais importante quando a gente passa a se reconhecer novamente.

E a parte linda com ela

Existe algo todo especial em termos nossos filhos olhando só pra gente. Quando deitamos no sofá para ver um filme juntas; quando dormimos agarradinhas; quando eu me reconheço nela; quando fazemos programas e viajamos e vivemos momentos que são só nossos; quando não preciso dividir ela com mais ninguém; quando ela me coloca no eixo.

Como você lida com a solidão?

 

A vida não acabou

A gente finalizou a conversa concordando que tinha muita água para rolar na vida. Que a gente não sabia exatamente o que futuro nos reservava, quando o coração voltaria a bater no ritmo normal. Separar é difícil, se separar com filhos mais ainda se ajustar a vida solo demora por que sentimos que sempre fomos parte de uma dupla. No meio do caminho a gente vai errar, vai fazer péssimas escolhas em busca de uma juventude que já está partindo.

Mas que, mesmo lidando diariamente com esse monstro chamado solidão, tem amor de sobra na gente pra continuar buscando ser feliz.

 

Fotos:

Zack Minor | Julia Caesar | Jean Gerber

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