Mordi a língua.

Mordi a língua muitas vezes.

Mordi a língua quando disse aos 30 anos que jamais apelaria para procedimentos estéticos – época em que ao fazer o teste da caneta na frente do espelho, ainda obtinha como resposta seios salientes e no lugar. 

Mordi a língua quando de repente, aos 40 depois de filhos, me vi pensando em botox, silicone e drenagem linfática.

Mordi a língua quando via mulheres mais velhas usando short e camiseta, ou ainda tênis de cano alto.

Em algum momento entre ter o meu filho e o agora, fui me esquecendo em um canto, fugindo de espelhos e de roupas mais joviais, até que pouco a pouco já não me sentia feliz na minha própria pele. Minhas roupas pareciam inadequadas para a nova idade e até um corte de cabelo foi cogitado. Surtei por semanas (na verdade foram dias), pensei em voltar para a análise, mas sofria mesmo em silêncio, afinal, com tanto protesto rolando na rua quem daria bola para os protestos do meu corpo. Aqui dentro eu vivia uma revolução, e de certa forma era mesmo um pedido de mudança.

Não apliquei botox, nem coloquei silicone. Marquei um pelling facial e fechei um pacote de drenagem linfática. Voltei a caminhar e a me alimentar melhor, mas o melhor que eu fiz foi ignorar as lembranças de uma criança que ainda mora aqui dentro, visões assombradas de como uma mulher de 40 anos era quando eu tinha apenas 5. 

 

Escrevo esse texto usando uma calça skinny, blusão florido e all star roxo 😉

 

 

Crédito de imagem: Serena178

Patricia

Patricia Smith

Patricia Smith é carioca, casada e mãe do Adam, um rapazinho sapeca e sorridente. Professora e nutricionista por formação, migrando para publicidade e auditoria por pressão. Autora do livro "Aventuras gastronômicas de uma mãe de primeira viagem." Do lar e do escritório, mas gosta mesmo é da cozinha.